Vontade


Há pessoas que parecem ter uma grande força de vontade. São capazes de estabelecer objetivos, enfrentar dificuldades, insistir quando as coisas não acontecem como esperavam. Algumas dessas parecem capazes de mover moinhos. Outras, talvez menos visíveis, simplesmente encontram maneiras de continuar caminhando.
Quando a vontade se dirige ao que ainda não aconteceu, vemos aberturas. O futuro pode ser desejado, imaginado, planejado. Pode até não acontecer como esperamos, e talvez nem aconteça, mas, enquanto permanece diante de nós, conserva alguma possibilidade.
É diferente quando olhamos para trás.
Aquilo que já foi escapa ao alcance da vontade. Já aconteceu. Está no passado.
Podemos lembrar, esquecer, interpretar, contar de outra maneira. Podemos aprender com aquilo, sofrer por aquilo, alegrar-nos com aquilo. Mas não podemos fazer com que não tenha acontecido.
Nietzsche percebeu nessa impossibilidade uma das grandes dificuldades da vontade. Em Assim falou Zaratustra, especialmente no capítulo “Da redenção”, ele coloca a vontade diante de uma experiência aparentemente simples: a vontade consegue querer aquilo que ainda não existe, mas não consegue querer para trás.
Diante do passado, encontra uma palavra que não pode modificar:
Foi.
E talvez seja aí que a vontade encontra sua prisão.
Faço essa menção a Nietzsche, mas vou deixá-lo em paz. Sigo, então, na esperança de que vocês, leitoras e leitores, continuem a ler esta crônica.
Alguns acontecimentos vão se afastando de nós. Com o passar do tempo, deixam de ocupar a figura da nossa existência, ou seja, saem do foco da nossa consciência, e passam a compor um fundo mais distante, como se se tornassem pontos discretos numa ampla paisagem.
Outros acontecimentos permanecem próximos.
Retornam.
Aparecem nas lembranças, nas escolhas, nos encontros, na maneira como nos relacionamos conosco e com as outras pessoas.
Não são necessariamente acontecimentos maiores. São acontecimentos que, por alguma razão, continuam tendo presença.
Podemos pensar nesses retornos como fragmentos de uma história que não se apresenta por inteiro. A memória não nos entrega a vida como uma narrativa perfeitamente organizada. Ela traz cenas, imagens, palavras, sensações, acontecimentos.
Alguns se articulam facilmente. Outros parecem não encontrar seu lugar.
E então surge a pergunta:
O que a vontade pode fazer diante daquilo que já foi?
Não pode apagá-lo.
Não pode voltar no tempo.
Não pode transformar o acontecimento em outra coisa.
Mas talvez possa transformar sua relação com aquilo que aconteceu.
Quantas vezes continuamos vivendo diante de acontecimentos que já terminaram?
Quantas decisões do passado continuam sendo julgadas por nós mesmos?
Quantas vezes retornamos mentalmente a uma cena, imaginando que, se tivéssemos dito outra coisa, escolhido outra direção ou percebido alguma coisa antes, a vida teria tomado outro rumo?
Mas o passado não negocia.
Ele permanece passado.
E agora?
Seria possível que aquilo que aconteceu deixasse de ser apenas algo contra o qual a vontade se rebela e passasse a fazer parte daquilo que somos capazes de sustentar?
Se a vontade não pode recompor o passado como quem recupera alguma forma original perdida, talvez possa, entretanto, dar forma àquilo que recebeu como fragmento, possibilitando que continuemos a criar a partir daí.
Aceitar o passado pode ser um caminho. Ressignificá-lo pode ser outro.
Mas seríamos capazes de afirmar aquilo que já foi?
Não porque tenha sido bom ou ruim. Não porque tenha sido inevitável. Mas porque foi, e porque nossa existência presente é inseparável daquilo que aconteceu.
As perguntas se sucedem:
Faz sentido refletir sobre essas questões?
Vivemos em um tempo que nos empurra a sermos rápidos, eficientes, objetivos. Precisamos decidir, produzir, alcançar resultados. Assim, até o tempo dedicado à reflexão parece precisar justificar sua utilidade. Até o tempo gasto na leitura de uma crônica pode ser questionado.
Mas talvez a vontade também precise de um tempo que não seja imediatamente produtivo.
Um tempo para perguntar o que estamos fazendo com aquilo que fizemos e com o que aconteceu.
O que fazemos quando nossas ações não produzem os resultados que esperávamos?
Como lidamos com as escolhas que já foram?
O que acontece quando o futuro para o qual dirigimos nossa vontade demora a chegar — ou simplesmente não chega?
Uma penúltima pergunta:
O que fazemos com aquilo que não podemos mais mudar?
Talvez não haja respostas definitivas.
Talvez as perguntas sejam parte da própria resposta.
Enquanto olhamos para o futuro, podemos perguntar o que queremos fazer. E talvez seja aí que a vontade deixe de ser apenas força para alcançar alguma coisa e se torne também força para afirmar a própria existência.
Como anda a sua vida, amiga?
Como anda a sua vida, amigo?
S. Terra de Azevedo
Créditos:


Uma leitura muito boa que traz grandes reflexões. Obrigada Sérgio
serjão, obrigado pelo convite à leitura. seu texto trouxe várias reflexões sobre a vida (e sem querer ser mórbido, sobre a morte também). abraço!
Muito profundo e pertinente!
Que texto profundo! Que merece ser lido inúmeras vezes!